(see english below)

Ontem já havíamos visto uma loja que chama atenção em Alter do Chão pela fachada cheia de plantas e com paredes feitas de garrafas de vidro. Hoje entramos na Araribá e vimos que ela é mais que isso, possui muito material e parece ser uma forte referência de cultura indígena em escala mundial. O dono viaja para as mais diversas aldeias e comunidades indígenas, especialmente brasileiras, encontrando e escolhendo objetos que coloca à venda aqui.

Muitos dos objetos que temos encontrado têm relação com a cultura indígena, e aqui pudemos ver alguns de seus mais lindos exemplares. Há cuias decoradas, cestos de fibras naturais, vimos bolsas e toalhas de crochê de palha, inúmeros tipos de joias e muito trabalho em madeira. Há redes de materiais naturais e balaios presos por todo o teto da loja, os objetos estão misturados em vez de enfileirados, e ouvem-se músicas indígenas cujos CDS também estão à venda: tudo contribui para criar uma atmosfera irresistível. É realmente impressionante a quantidade e qualidade do que se reuniu aqui. Vale muito a visita.

Mais tarde, à noite, vimos na praça uma discussão local sobre Belo Monte – a polêmica usina hidrelétrica que está sendo construída aqui perto, em Altamira. Duas garotas inglesas que filmaram pessoas de Altamira dando sua opinião sobre a usina estavam projetando os vídeos na praça central e pretendem divulgá-los fora do país. Esse assunto já apareceu algumas vezes em conversas durante a viagem, mas foi a primeira vez que vimos uma discussão pública.

 

Yesterday we saw a shop that calls the attention because of the plants on its facade and the walls made with glass bottles. Today we entered Araribá and we noticed that this shop is possibly a world reference on indigenous culture. The owner travels to far away aldeias and communities in order to find and choose the objects he sells here.

Many of the objects we are finding in our journey have a relationship with the indigenous culture, and at Araribá we could find beautifull exemples.There are decorated bowls, baskets made out of natural fibers, straw crocheted into bags and towells, many kinds of natural jewelry and wood works. There are hammocks and baskets made out of natural materials hanging from all over the ceiling, the objects are mixed instead of being aligned, and you listen to indigenous songs, also for sale in CDS they have: everything contributes to create an irresistable athmosphere. Its really impressive the amount and quality of the objects. It’s definetly worth a visit.

Later on at night, we saw in the main square of Alter do Chão a local discussion about Belo Monte – a polemic water energy usine that is being built in a city very close by, Altamira. Two english girls have filmes people at Altamira giving their opinion about the usine and they were showing the videos that they intend to spread out of Brazil. This subject has appeared in other conversations during our trip, but this was the first time we saw a public discussion on the theme.

(see english below)

Fizemos a trilha da Sumaúma: 7 km de caminhada pela Floresta Nacional Tapajós (Flona) para ver essa árvore gigante. Dentre as inúmeras espécies vistas, algumas madeiras mais conhecidas da indústria moveleira destacaram-se: Cedro, Jatobá e a própria Sumaúma. Elas impõem-se pelo tamanho e, a julgar pelo impacto que a queda de uma delas provocaria ao redor, é possível imaginar porque muitas madeiras amazônicas têm seu uso proibido. No meio da trilha, vimos uma casa de palha abandonada, é chamada de casa de seringueiro: eles passavam a noite ali quando iam colher látex, tarefa que deve ser feita nas primeiras horas do dia.

Vimos um objeto que ouvimos falar diversas vezes, chamado paneiro. Ele parece uma mochila e é feito da folha de uma palmeira. É usado pelos trabalhadores da floresta para transportar o que foi colhido ou para as mães carregarem seus bebês. Descobrimos outro objeto similar a ele, o jamaxim, feito com cipó e com uma abertura maior. Além deles, descobrimos a pera, que também tem função de transporte de pequenas cargas, só que com o formato de uma pasta ou bolsa-carteira.

Ao cair da tarde, pegamos um barco para Alter do Chão, trajeto que durou 3 horas, finalizado por um por do sol incrível. Chegamos numa cidade completamente alagada, a água já cobre a rua e a calçada da orla. Amanhã continuaremos o diário com mais impressões sobre o balneário.

Fotos a seguir: a Sumaúma na mata primária, casa de seringueiro, o paneiro e Alter do Chão alagada ao por do sol.

 

We walked the Sumaúma track: 7 km Inside Tapajós national forest (flona) to see this giant tree. Among the many species we saw, the most special were some that are very well known by the furniture industry, such as Cedro, jatobá and the sumaúma itself. Their size is impressive, and if we consider the impact that the extraction of one of them can cause in its surroundings, we can understand why many amazonian woods are not allowed to be used anymore. In the middle of the track we saw an abandoned house, it is called “casa do seringueiro”: the látex extractors used to sleep there before work, since the rubber must be collected in the first hours of the day.

We saw an object that we heard about many times, the so called paneiro. It looks like a bag made out of a palm leaf. It is used by the forest workers to carry what they catch or by the mothers to carry their babies. We discovered another object similar to it called jamanxim, but its made out of a vine and has a bigger open area. Besides those, we also discovered the pera, an object that also has the function of transportation of small weights, but looks more like a purse.

In the late afternoon we made a 3 hour boat trip from jamaraquá to Alter do Chão, Arriving during a beautiful sunset. At the moment the city is very much flooded, the water invaded the car and the walk paths. Tomorrow we will tell more about this “beach” city of the Amazon.

Pictures above: the Sumaúma in the primary forest, the house of the latex extractors, the paneiro and  Alter do Chão flooded at the sunset.

(see english below)

O dia começou com uma visita rápida a um local bem interessante em Santarém: o pequeno museu Dica Frazão. Dona Dica é uma estilista e costureira que se utiliza de materiais naturais para fazer moda, transformando o material bruto em tecidos ou apliques bastante criativos. Vimos, por exemplo, suas toalhas de crochê de palha de buriti, vestidos de patchouli, de juta e de casca de madeira, adornos de flores de pena de ganso, dentre muitas outras peças. Chama muito a atenção o preciosismo da artesã e o espaço do museu, que também é casa e ateliê de Dona Dica, tudo no mesmo lugar!

Depois disso, pegamos um ônibus para a Comunidade Jamaraquá. Em poucos minutos de viagem, conhecemos Nice, a líder da comunidade, que nos deu várias dicas: indicou a casa de sua mãe para pouso (em Jamaraquá não há pousadas) e se prontificou a ajudar-nos a ver a produção do couro de látex. Jamaraquá fica dentro da Flona Tapajós, uma área de reserva bastante controlada: os moradores tiveram que mudar de vida para que a área de conservação fosse criada a partir dos anos 70, o que ainda gera impasses.

Conforme o ônibus avançava, fomos vendo diversas casas de roça, pequenas comunidades e passamos pela cidade de Belterra. É muito comum ver casas com telhado ou até paredes inteiramente de palha, a arquitetura vernacular local. Mesmo muito humildes, as casas têm plantas na frente, formando uma espécie de jardim. Há muitas cercas e varandas de madeira com as ripas formando grafismos, simples e sofisticados ao mesmo tempo.

Já em Jamaraquá, área de muitas seringueiras, visitamos o centro de produção do couro de látex, onde fomos guiadas pelo Seu Dido. Ele mostrou todas as etapas de fabricação deste material, que ainda é pouco usado.

Jantamos na casa da mãe da Nice, Dona Socorro, que tem 16 filhos, além dos agregados, gatos, cachorros, galinhas e até um papagaio -“Laura”- que vive solto. O marido de Socorro, Seu Iracildo, trabalha com turismo e é conhecido por fazer trilhas noturnas em que pega jacarés na mão. A família é descendente de índios, porém não gostam de falar disso. Ser índio aqui não é motivo de orgulho, parece ser associado com atraso: vimos uma criança chamar a outra de índio com conotação bem pejorativa.

Por fim dormimos em redes no “pouso”, que era uma construção sem paredes e só com telhado de palha, à beira do Rio Tapajós e cercada pela Floresta Amazônica…

A seguir, imagens: vestido de Dica Frazão, casa na beira da estrada, galpão de fabricação com o couro de látex, a casa de Dona Socorro em Jamaraquá.

 

 

The day started with a quick visit to a very interesting place in Santarém: the small museum Dica Frazão. Dona Dica is a stylist and also a sewer who uses natural materials in fashion designs by transforming raw material into creative textiles or accessories. We saw, for example, her crochet towels made out of buriti straw; patchouli, juta and three trunk dresses; flowers out of goose feathers; among many other things. Her strong attention to detail calls as much attention as the space of the museum itself, which is also her house and atelier all together!

After that, we took a bus to Jamaraquá Community. In the first few minutes of our trip we met Nice, the community’s leader, who gave us a lot of tips: she indicated the house of her mother as a place to stay (no hotels in Jamaraquá so far) and also offered to help us finding the local rubber production. Jamaraquá is inside the Flona Tapajós, a strictly controlled reserve: in the 70’s, the inhabitants had to change their lifestyle in order to create the conservation area, a situation that is still a bit problematic.

As the bus went on, we started to see many countryside houses, small communities and we also passed by the city of Belterra. It is very common to see houses with roofs and even walls totally made out of straw, the local vernacular architecture. Even very humble houses have plants in front of it, forming a garden. There are many fences and balconies made out of wooden sticks forming graphic shapes that are at the same time simple and sophisticated.

At Jamaraquá, an area full of “rubber” threes, we visited the rubber production centre, where Mr. Dido guided us. He showed all the steps of the preparation of this material, which is still barely used.

We had dinner at Nice mother’s house, Dona Socorro, who has 16 children, besides the many cousins that live there, cats, dogs, chickens and a parrot – called “Laura” – which lives out of any cage. Socorro’s husband, Iracildo, works with tourism and is known for making walking tracks at night and taking alligators with his hands. The family descends from Indians, but they don’t like to talk about that. To be an Indian here is not something to be proud of, it seems to be associated with old and stupid: we saw a child calling her sister “Indian” with a very bad connotation.

Finally, we went to our hammocks. We slept inside a construction with only the straw roof on top, totally without walls, just by the Tapajós River and surrounded by the Amazon Forest…

Above, the images: a dress by Dica Frazão, a house in the bus path, the place of fabrication of the latex with the rubber and the house of Dona Socorro in Jamaraquá.

(see english below)

Há em Santarém um projeto social famoso e que já existe há muitos anos, chamado Saúde e Alegria. A primeira coisa que fizemos foi ir à sede deles aqui, para saber mais das iniciativas que envolvem design e como podemos conhecê-las.

Sem marcar hora, conseguimos falar com dois funcionários do projeto, o Carlos e o Silvaney, que nos deram muitas dicas do que existe na região e do que podemos fazer no nosso curto espaço de tempo. Foi interessante ver, na bela sede do projeto, o uso de cortinas de palha em quase todas as salas.

Com as informações, decidimos que iremos passar pela Flona (Floresta Nacional) Tapajós. Por isso passamos na sede do ICMBio (Instituto Chico Mendes), responsável por todas as áreas de conservação do Brasil. Lá fomos orientadas sobre qual o melhor transporte, horários e valores.

Quase no horário de almoço, a caminho de outras visitas, passamos pelo Mercado Municipal de Santarém. Novamente avistamos uma cortina de palha, desta vez enrolada do lado de uma banca de revistas, comprovando este ser um material adequado para barrar o sol e não transmitir calor. Na feira vimos também uma fruta bem diferente, chamada pelo vendedor de mari-mari. São gomos verdes pequenos que vêm bem organizados dentro de uma longa “tripa”: é um verdadeiro “ drops” natural com embalagem unitária.

Passeamos um pouco por um bairro residencial de Santarém na hora do almoço. As casas são simples e coloridas, e o que chamou bastante nossa atenção foi a quantidade e o design das grades. Isso demonstra uma preocupação com segurança que a cidade pacata à primeira vista não aparenta.

À tarde procuramos o IPAM (Instituto de Pesquisas Ambientais) para saber mais sobre o projeto Oficinas Caboclas do Tapajós, iniciado por eles. Conhecemos o Antonio José, a Leni e o Elias, alguns dos articuladores do IPAM no projeto, que nos explicaram detalhadamente sua história e como funciona. Resumidamente, o projeto começou com a vontade de reaproveitar resíduos de madeiras raras abundantes na região, aliando à necessidade de gerar renda às comunidades. Utilizando apenas ferramentas manuais, implementaram oficinas de marcenaria nas comunidades e aos poucos foram treinando pessoas para confeccionar móveis de um estilo rústico, que muitas vezes imitam formas de animais da região. Hoje são seis comunidades à beira do Tapajós que se associaram e envolvem mais de 450 pessoas.

Veja abaixo imagens das cortinas de palha, do mari-mari, das grades de Santarém e uma amostra da produção das Oficinas Caboclas.

 

In Santarém there´s a famous social project that exists already for many years called Saúde e Alegria ( Health and Joy). The first thing we didi was to go in their “headquarter” here, in order to get to know the iniciatives that involve design.

Without any schedule we could speak to two employees of the project, Carlos and Silvaney, who gave us many tips about what exists in the area and what can we do in a short spare of time. It was interesting to see, in the beautiful house of the project, the use of straw curtains in almost all of the rooms.

With the information, we decided to pass by Flona (Natural Forest) Tapajós. Then we had to pass at ICMBio (Chico Mendes Institute), responsible for all the conservation areas in Brazil. There we were oriented about the best transportation means, the time table and the prices.

Almost around lunchtime and in our way to other visits, we passed by the Santarém’s Market. Again we saw a straw curtain, this time it was by the newspaper shop, proving us that this material is adequate to block the sun and heat. We also saw a very different fruit, called by the seller “mari-mari”. It consists in small green parts very organized inside a long capsule: it’s actually a natural “drops” inside a perfect packaging.

At lunchtime, we strolled around a residential district of Santarém. The houses are simple and colorful, and what called our attention a lot was the design and the huge amount of grids in front of doors and windows. This demonstrates a preoccupation with safety that is not obvious in an apparently calm town.

In the afternoon we looked for IPAM to get to know more about their project Oficinas Caboclas do Tapajós (Caboclas Workshops of Tapajós river). We met Antonio José, Leni and Elias, some of the agents of the Project Who explained us in details its history and how it works. Summarizing, the project started with a wish to reuse residues of valuable woods in the area, connected with the need to generate income in some communities. Having only hand tools, they implemented wood workshops in the communities and little by little they trained the people to make rustic furniture, having many times their own fauna represented in them. Today there are six communities along the river Tapajós participating in this project, and more than 450 people involved.

See above images of the straw curtains, the mari-mari, the grids at Santarém and a sample of the Oficinas Caboclas’ work.

(see english below)

O trajeto Manaus-Santarém mostra uma paisagem linda, única no Brasil e talvez no mundo. Com a cheia, áreas alagadas de alguns quilômetros avançam desde as margens para dentro da mata. Veem-se apenas barcos, criação de animais, algumas casas e igrejas isoladas, muitas delas semi-alagadas.

As casas de madeira construídas sobre palafitas parecem flutuar e mostram como aqui o produto humano tem que se adaptar à natureza e não o contrário. A sazonalidade das estações e a força da natureza determinam muitas coisas neste contexto.Além de fonte de alimentos e meio de transporte, outras atividades apóiam-se no rio, como por exemplo o turismo e o comércio. Ao parar em cidades menores, vimos uma população de ambulantes se aproximar do barco, vendendo principalmente comida aos viajantes.

Numa dessas paradas foi interessante notar um objeto criado pelos vendedores: um cabo de vassoura com meia garrafa pet na ponta. Como não podem entrar no barco, eles anunciam seus produtos de longe, gritando. Quando alguém compra, eles colocam seu produto (geralmente uma marmita) dentro de uma sacola, e prendem no cabo de vassoura. Aí estendem a mercadoria até o comprador, que geralmente está no alto do barco. O cliente pega sua compra e paga colocando o dinheiro dentro da pet.

Durante a viagem, conversamos com a atendente do bar, que trabalha no barco há 8 anos e inclusive mora no trabalho. Ela é índia, nasceu numa aldeia na divisa do Mato Grosso com o Pará e foi raptada aos 7 anos de idade, para só voltar a ver a família aos 23 anos. Por essa e outras histórias pudemos perceber, através de relatos dos próprios protagonistas, como é a realidade e as dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas e seus descendentes. Parece que a ideia de “terra sem lei” vale como regra geral fora das grandes capitais por aqui.

 

The route Manaus-Santarém has a beautiful and unique landscape in Brazil and possibly in the whole world. With the river full of water, many kilometers of flooded areas pass the “margins” and invade the forest. All you can see are boats, cattle raising, some isolated houses and churches, many of them half-flooded.

The wooden houses built on sticks seems to float and show that the human-made things here have to adapt to nature, and not the opposite as we are used to. The seasons and the strenght of the nature dictate many things in this context.

Besides being the source of food and serve as transportation, many other activities are based on the river, for example tourism and commerce. When we stopped in smaller cities, we saw many street sellers getting close to the boat, trying to sell food to the travellers.

In one of these stops we noticed an interesting object created by the sellers: the stick of a broom with half plastic bottle in one of its edges. As these vendedors cannot enter the boat to sell, they announce their products screaming from the port. When someone inside decides to buy, they put their product in a bag and hang it from the edge of the broom stick, lifting it till the buyer, who is normally at a higher level in the boat. The client takes the product and pays it by putting the money inside the half plastic bottle.

During the trip, we had a chat with the bar attendant, who works in the boat for 8 years and also lives inside the boat. She is an indian who was born in an indian “aldeia” at the border between the districts of Mato Grosso and Pará. She was kidnapped when she was 7 years old and she only saw her family later on, when she was already 23. Because of this and other stories told by its own protagonists we could notice how is the reality and the difficulties that the indians and their descendants face in here. It seems that the idea of a “land with no law” rules the places out of the main cities of the North.

(see english below)

Hoje passamos o dia todo sobre águas amazônicas. Às 7h da manhã saímos de Novo Airão de barco rumo a Manaus, onde apenas trocamos de embarcação e seguimos descendo o rio rumo a Santarém.

No começo da tarde vimos o famoso encontro das águas dos rios Negro e Solimões, um fenômeno muito bonito, em que as águas, de tonalidades e propriedades físicas diferentes, simplesmente não se misturam, formando enormes manchas de água preta e marrom na superfície do rio.

O barco Luiz Afonso que nos leva tem 3 andares e capacidade para cerca de 300 pessoas acomodadas em redes e algumas cabines. Há espaço para comer (muitos trazem suas marmitas); um bar que serve bebidas, petiscos e refeições com hora marcada; e banheiros com ducha.

Viajar de barco usando redes e com condições satisfatórias de conforto parece uma ideia interessante e bem adaptada à realidade local. Vale lembrar que elas devem fazer parte do grupo dos objetos “brasileiros” mais antigos de que ainda fazemos uso cotidianamente, e aqui no Norte elas são ainda mais presentes.

Neste barco, as redes parecem formar um grande e criativo caleidoscópio. São vários modelos, cores, padrões de textura, altura em que estão penduradas. Como cada passageiro traz a sua, o ambiente ganha um aspecto único e divertido a cada viagem, e não padronizado como um ônibus, por exemplo. Muitas vezes as redes mostram as preferências de seus donos, seja pela cor ou por mostrar seu time de futebol, e há também as customizadas, com o nome do dono gravado.

Esse uso mais “aberto” do espaço acaba gerando um tipo de interação diferente numa viagem, muito mais intensa. Querendo ou não, é difícil ficar indiferente ao que acontece ao redor, e os mais animados aproveitam para fazer amizades.

 

Today we spent the whole day on board. At 7 o’clock we left Novo Airão in a boat heading to Manaus, where we just switched to another bigger boat to Santarém.

In the beginning of the afternoon, we saw the famous confluence of the rivers Negro and Solimões, a phenomenon in which the waters with different colors and physical properties simply don’t mix, forming big spots of black and brown water in the surface of the river.

Luiz Afonso boat has 3 levels and is able to carry around 300 people in hammocks and some few cabins. There’s space to eat (most of the people bring their own food); a bar to serve drinks, snacks and meals; and toilets with a douche.

A trip by boat using hammocks and with appropriate comfort standards seems to be a nice and well adapted idea to the local context. It’s also good to remember that the hammocks are one of the oldest Brazilian objects still in use, and here in the North of the country it is even more present.

Inside this boat, the hammocks seem to form a creative kaleidoscope. There are many models, colors, textures, patterns and  heights where they hang. As each passenger bring his own hammock, the place has an unique and funny aspect which is different in each trip, and it’s never “standardized” as in a bus, for example. Many times the hammocks show the preferences of its owner, by the color or by showing a football team. Some are even customized, with the owner’s name embroidered in it.

This more “open” use of the space ends up generating a different, much more intense kind of interaction in a trip. Whether one wants it or not, its hard to be indifferent to what happens around, and the most entousiasthic are always making friends.

(see english below)

Novo Airão é uma cidade charmosa, simples e bastante preservada. Predominam ainda casas de madeira e há uma sensação provinciana no ar, dando a impressão de estarmos num recanto aconchegante em pleno coração da maior floresta do mundo.

Visitamos pela manhã a AANA (Associação dos Artesãos de Novo Airão), onde fomos recebidas pelo Erivaldo, um dos coordenadores. Esta associação, que surgiu por meio de um projeto da Fundação Vitória Amazônica (já citada aqui), é especializada em fibras, sendo quase todas as participantes mulheres.

Além de mostrar o belo galpão da Associação, o Erivaldo fez uma demonstração completa do processo de trabalho dos artesãos desde a coleta do material natural – o caule do arumã – até o trabalho de trançar as fibras formando desenhos.

À tarde estivemos na FAM (Fundação Almeida Malaquias) fundada pelo Seu Miguel, com quem conversamos em Manaus. Fomos recebidas pelo Jean Daniel, coordenador da Fundação, num gracioso “complexo” de galpões entre as árvores. O trabalho da FAM começou muito ligado ao artesanato, reaproveitando restos de madeiras preciosas da Amazônia provenientes da construção de embarcações. A Fundação conta com uma oficina de madeira incrível, onde além deste trabalho, é realizado o treinamento de profissionais.

Jean contou-nos dos desafios que tem como empreendedor e das adaptações que teve de ir fazendo com o tempo. A FAM pretende que seus trabalhadores sejam autônomos e que tornem-se verdadeiros gestores, por isso tem projetos de educação ecológica infantil, além de educação básica de adultos e muitos outros projetos “adjacentes” que acabam dando uma dimensão bem mais profunda ao projeto.

Fica claro que ambos os projetos têm forte cunho social, e que o artesanato não só é fonte de renda, como também é um agente de mudanças para a região de Novo Airão.

Abaixo imagens do Erivaldo trançando o arumã (AANA) e o jardim de entrada da Fundação Almerinda Malaquias (FAM).

 

Novo Airão is a charming, simple and preserved city. There are many wooden houses and there’s a “countryside” feeling in the air, giving us the impression to be in a cozy place in the very heart of the biggest forest of the world.

In the morning we visited AANA (Association of the Artisans of Novo Airão), where we were received by Erivaldo, one of the coordinators. This association, which started through a project of Fundação Vitória Amazônica (already mentioned here), is specialist in fibers, and almost all participants are women.

Besides showing us the beautiful space of the Association, Erivaldo made a complete demonstration of the work process of the craftsmen, from collecting the natural material – the trunk of the arumã – till the weaving of the fibers with drawings. We shooted the conversation and soon there will be a video available here.

In the afternoon we were at FAM (Almerinda Malaquias Foundation) founded by Mr. Miguel Rocha, to whom we have spoken in Manaus. We talked to the main coordinator, Jean Daniel, in a lovely “complex” among trees and workshops. FAM’s work started very connected to crafts by reusing precious Amazonian wood pieces that were leftovers from the making of boats. FAM hosts an amazing wood workshop, where besides the normal production there’s also the training of professionals.

Jean told us abou the challenges he has as a manager and all adaptations he made along the years. FAM intend that its workers become autonomous craftsmen and administrators, and in order to achieve that, they have programs such as ecological education for kids, basic education for adults and much more “adjacent” projects that amplify the basic idea of the Foundation.

It is clear that both FAM and AANA have a very strong social aspect, and that craft is not only a source of income, but also a change agent at Novo Airão.

Above an image of Erivaldo weaving the arumã (at AANA) and Athe entrance garden of the Almerinda Malaquias Foundation (FAM).

(see english below)

Passamos o dia novamente nas redondezas do Anavilhanas Jungle Lodge. Pela manhã, fizemos uma caminhada com o guia Leandro, um índio que nos contou detalhes curiosos e interessantes, tanto da floresta quanto da sua vida na aldeia. Percebemos que o seu olhar é bastante diferente, por exemplo, de guias mais técnicos: ele tem maior conhecimento prático por ter crescido e vivenciado a floresta de modo mais intenso, e também tem clareza sobre a importância da Amazônia para o mundo.

Leandro nos disse que a fruteira que encontramos ontem (veja foto aqui) é usada pelos índios como berço de nenê ou brinquedo de criança, como barco ou balanço. Ficamos muito impressionadas com o que acontece nos rituais indígenas de passagem da infância para idade adulta, como colocar a mão no formigueiro (que ele demonstrou – em breve postaremos o vídeo), subir em árvores para tirar mel da colmeia e ter os olhos feridos com pimenta, sendo que em nenhum momento podem demonstrar sofrimento. As garotas, aos menstruar, ficam 40 dias reclusas no escuro tecendo esteiras, e ao sair têm todo seu cabelo arrancado.

À tarde conhecemos mais de Anavilhanas indo para uma pescaria de piranhas. O Rio Negro está muito cheio e a sua água escura e calma cria um efeito de espelho, duplicando toda a paisagem de maneira incrível.

Descobrimos um “jogo” natural: é a cuia de macaco. A cuia carrega sementes de formas irregulares que ficam bem encaixadas dentro dela. Ela parece uma verdadeira caixinha, e suas sementes são como peças de um quebra-cabeça 3D.

 

We spent the day around the Anavilhanas Jungle Lodge. In the morning, we went for a walk with the guide Leandro, an Indian who told us curious things not only about the forest, but also about his life in the indigenous camp. We noticed that his point of view is quite different from a trained guide: since he grew up and lived in the forest, he has more practical knowledge about it, and he is also very aware about the importance of the Amazon in the world context.

Leandro told us that the fruitbowl we posted yesterday (see the picture here) is used by the Indians as a baby cradle or a child’s toy, such as a swing or a boat. We were very impressed with the stories of what happens during the Indian rituals concerning the passage of the childhood to adult age, such as putting the hand in an ant’s nest (he demonstrated it – we will post a video soon), climbing a tree to take honey from the bee’s nest and having the eyes hurt with pepper, everything without showing any pain. For the girls, when they have their periods, the stay 40 days closed in the dark making mats, and when they get out they have all their long hair taken out of their heads.

In the afternoon we got to know Anavilhanas a bit more: we went fishing piranhas. The Negro River is very full and its dark and calm water creates a mirror effect, duplicating the whole landscape in an incredible way.

We discovered a natural puzzle: it is called monkey’s bowl. The bowl carries seeds with irregular shapes that are perfectly positioned inside of it. It looks like a real box, and its seeds are like parts of a 3D puzzle.

(see english below)

Depois de 6 dias em Manaus, finalmente chegamos em Novo Airão. Passamos rapidamente pela cidade e em seguida fomos levadas de barco ao hotel que está nos apoiando, Anavilhanas Jungle Lodge. Nesses primeiros 5 minutos de travessia, já pudemos sentir a beleza natural da região: a cor escura e avermelhada das águas do rio Negro e a grande quantidade de ilhas, compridas e com uma massa de vegetação muito vede,  densa e alta. Chegando no hotel, a mesma impressão positiva: as instalações construídas como cabanas de madeira, de visual simples e agradável, com materiais naturais; o serviço correto e discreto; e a organização de pequenos detalhes que dão charme ao atendimento. Por exemplo, os quartos são identificados com nomes de animais da fauna amazônica. Na hora das refeições, as mesas do restaurante são reservadas para cada quarto e identificadas por uma pequena escultura em madeira do animal correspondente. Nosso quarto é o tamanduá.

Ao longo da tarde separamos alguns materiais da floresta: sementes de formas variadas e uma fruteira feita de material colhido do chão, uma casca de palmeira que carrega os frutos da planta. Mais tarde, participamos de um passeio de barco para ver os animais da floresta em seu habitat natural, um verdadeiro safári, só que noturno! O guia e o barqueiro, usando apenas uma lanterna potente, conseguem ver coisas que nós jamais veríamos. O guia vai apontando o facho de luz para a mata, enxerga os animais e nos aproximamos, passando no meio do igarapé, já que é época de cheia. Vimos bem de perto uma aranha caranguejeira; uma preguiça jovem e pequena, toda enrolada, pendurada de ponta-cabeça num galho; quatro ou cinco filhotes de jacaré, de uns 50 a 60 centímetros de comprimento; uma cobra enrolada no galho de uma árvore; um porco-espinho correndo bem no alto da copa de outra árvore; uma preguiça grande, adulta, bem no alto, acomodada entre dois galhos. Outro momento impressionante foi quando ficamos com o barco parado, num meandro do rio cercado de mata, com as luzes apagadas, apenas ouvindo os sons da floresta…  sensação arrepiante.

 

After 6 days in Manaus, we finally arrived at Novo Airão. We passed very quickly through the city and went to a small harbor, where we were taken to the hotel which supports us, Anavilhanas Jungle Lodge. In those 5 minutes of boat trip, we already could notice the natural beauty of the place: the dark, reddish color of the Negro river water and the huge amount of long islands with very green, tall and dense vegetation. In the hotel we had the same positive impression: the buildings are wooden lodges made out of natural materials, with a simple yet very cozy visual; the service is correct and discrete; and the organization gives a lot of charm to the attendants. The rooms, for example, are identified by the names of local animals. The tables of the restaurant are reserved for each room and the host identifies it by the small wood statue of the room’s animal. Our room is the tamanduá.

In the afternoon we separated some Forest materials we found: some seeds with strange shapes and a totally natural fruitbowl. Later on, we took part in a boat expedition to see th forest animals in its natural habitat, actually a real safari, but at night! The guide and the boat man have just a good flashlight and with it they can see things we would never see. The guide points the light to the trees, he sees the animals and we get closer. We could see one big spider, two slots, four or five alligators, one porcupine, some night birds and a big snake. A very impressive moment was when they stopped the boat in small part of the river surrounded by trees: with the lights off we could only hear the loud sounds of the forest…

(see english below)

Tivemos uma sexta-feira 13 cheia de histórias e surpresas agradáveis. Começamos o dia com uma conversa com o encantador senhor Miguel Rocha, dono do hotel em que estamos hospedadas e criador e presidente da Fundação Almerinda Malaquias, de Novo Airão. A fundação já constava em nossos planos de visitas e a relação entre o dono do hotel e a instituição foi a primeira coincidência feliz de hoje. Além de nos dizer como criou e o que desenvolvem ali, Miguel nos contou histórias fantásticas sobre a infância cabocla e as expedições que fez com seu barco levando personalidades em incursões pelo rio Amazonas. Chegou a participar de missão chefiada pelo famoso explorador francês Jacques Cousteau; conheceu Sir Peter Blake, autor da capa do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts” dos Beatles, que foi assassinado por piratas em seu veleiro perto de Macapá; e acompanhou em 2007 o nadador de longas distâncias esloveno Martin Strel, mencionado no Guinness Book pela travessia do rio Amazonas desde a cabeceira no Peru até a foz em Belém.

Depois dessa “aula”, a Profa. Brunna Rocha Anchieta – participante do workshop – nos mostrou a Faculdade de Design da Fucapi (Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica) e nos apresentou ao Núcleo de Design Tropical. Esse núcleo trabalha exclusivamente com madeiras não comerciais provenientes da Amazônia. Há árvores cuja extração é proibida: sua madeira só pode ser usada quando a planta cai naturalmente ou quando há um carregamento ilegal apreendido pela fiscalização do Ibama. Ali esse tipo de material é trabalhado por designers e a produção acontece no galpão ao lado, de forma bem organizada.

Almoçamos na Ufam (Universidade Federal do Amazonas), onde percorremos o incrível edifício do arquiteto manauara Severiano Porto, que funciona muito bem no calor de Manaus.

Por fim, fomos conhecer o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) na tentativa de conseguir amostras do couro de peixe, material muito interessante e ainda pouco divulgado. Chegamos no campus apenas com a informação de que deveríamos falar com o senhor Rebelo. Depois de alguma espera no corredor da sala do Prof. Jorge Rebelo, diretor técnico da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), conseguimos falar com a Profa. Eliana Feldberg, coordenadora da pós-gradução do INPA e esposa dele. Descobrimos que o Rebelo que buscávamos é outro, e que, infelizmente, ele não se encontrava no instituto naquele momento. Não conseguimos ver o couro de peixe, mas fomos compensadas conhecendo a Eliana, que nos deu uma série de outras informações importantes. Percebemos que, por ser um centro de pesquisa científica, o INPA concentra uma riqueza de informações que podem ser aproveitadas por quem trabalha com design e quer empregar os materiais da floresta.

A seguir, imagens da marcenaria da Fucapi, de uma passagem jnterna da Ufam e da entrada do INPA.

 

We had a great Friday 13th. The day started with a talk with the enchanting Mr. Miguel Rocha, the owner of the hotel we are staying in Manaus (Chez les Rois) and the creator and president of Almerinda Malaquias Foundation at Novo Airao. This foundation was already in our plans for a visit and was nice to know that Mr. Rocha was a connection. Besides telling us about how he created it and what they do at the foundation, Mr. Rocha told us amazing stories about his childhood in the interior of the Amazon and the expeditions he made taking a lot of celebrities through the Amazon rivers with his boat. He took part in a mission leaded by the famous French explorer Jacques Costeau; he met Sir Peter Blake, author of the cover of Beatles album “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts” and who was murdered by pirates close to Macapá; and in 2007 he accompanied the long distance swimmer Martin Strel, mentioned at the Guinness Book since he swimmed the Amazonas river from its start at Peru till its end in Belém.

After this class with Mr. Rocha, the teacher Brunna Rocha Anchieta – one of the participants of our workshop – showed us the Design Faculty at Fucapi (Foundation Analysis Centre, Research and Technological Innovation) and presented us to the Tropical Design Group. This group works exclusively with non-commercial wood provenient from the Amazon. There are trees which are not allowed to be extracted, so its wood can only be used when the tree naturally falls down or when the wood is taken by the fiscals from illegal extractors.  This design group work only with this material and the production of pieces happens very close by, in a super organizes workshop by the forest.

We had lunch at Ufam (Federal University of the Amazonas), where we could walk through the fantastic building of the local architect Severiano Porto. The ventilation works amazingly well in the heat of Manaus.

Finally, we went to INPA (National Institute of Research in the Amazon) in order to get some samples of fish leather – a very interesting and still little known material. We arrived at the campus just knowing we should speak to a certain Mr. Rebelo. After waiting in front of the room of Teacher Jorge Rebelo, director of Fapeam (Foundation for Research  Support in the Amazonas), we could speak to Teacher Eliana Feldberg, who is the post-graduation coordinator and also his wife! We discovered that the Rebelo we were looking for was another researcher, and unfortunately he wasn’t working at that time. We couldn’t see the fish leather yet, but we were compensated by the talk with Teacher Feldberg. We realized that as INPA is a center of scientific research, it concentrates a lot of information that can be used by who works with design and wants to use the forest materials or knowledge.

See above pictures of the wood workshop at Fucapi, a passage inside Ufam s building and the entrance of INPA.